Você bateu a meta. Aquele número que, durante meses, foi o horizonte de tudo — a quantia que, quando chegasse, significaria que você tinha vencido. Chegou. E na manhã seguinte, antes mesmo do café, você já estava calculando o próximo. Não com alegria: com uma inquietação surda, como quem descobre que a linha de chegada era pintada no chão e alguém a apagou durante a noite. Você não parou para perguntar por que o número que ontem bastava hoje já era pequeno. Simplesmente abriu a plataforma de novo.
O mercado tem um nome bonito para isso. Chama de fome de crescer. De garra. De não se acomodar. O investidor sério, dizem, é aquele que nunca está satisfeito — o apetite insaciável é vendido como o próprio motor do vencedor, o sinal de que você tem a fibra que os outros não têm. É uma explicação lisonjeira, e por isso mesmo perigosa: ela transforma um sintoma em elogio. Ela pega exatamente aquilo que te consome e te convence de que é a sua melhor qualidade.
Há setecentos anos, um teólogo olhou para esse mesmo apetite e deu a ele um nome muito menos lisonjeiro. Santo Tomás de Aquino chamou certos estados da alma de aegritudo animalis — literalmente, enfermidade psíquica. Aegritudo é a palavra que ele usa para doença; animalis aponta para o que é da alma, o psíquico. Não é metáfora piedosa nem figura de retórica. É uma categoria antropológica precisa, e o estudioso que a recupera hoje observa que Tomás talvez tenha sido o primeiro autor na história do pensamento a desenvolvê-la com esse rigor: uma desordem das faculdades sensitivas internas do homem — a imaginação, a memória, a cogitativa, os apetites. O desejo, para Tomás, pode adoecer. E o mais inquietante é como ele adoece.
Comentando o Livro VII da Ética de Aristóteles, Tomás registra que existem deleites que se tornam prazerosos contra a natureza — por costume. São suas as palavras: para alguns, ocorrem deleites antinaturais devido a uma enfermidade interior ou a uma corrupção proveniente do hábito. Leia isso devagar, porque é o eixo de tudo. Um apetite não precisa nascer doente. Ele adoece pela repetição. Você faz uma coisa, sente um prazer, repete; repete de novo, e de novo, e a certa altura a repetição deixa de ser uma escolha e vira uma segunda natureza. O prazer que você extrai daquilo passa a parecer normal, próprio, íntimo — passa a parecer quem você é. O hábito, que os antigos sabiam ser o forjador da virtude, é também, quando desordenado, o fabricante da doença. E ele disfarça a doença de temperamento.
É aqui que o diagnóstico tomista inverte o do mercado, e a inversão é total. Onde o incumbente vê garra, Tomás vê sintoma. Um desejo que se sacia por um instante e volta maior; que já não obedece à razão e disparou no automático; que dá prazer justamente na repetição, não no objeto — esse desejo não é um motor que você deveria alimentar. É um sinal de que algo na ordem da sua alma se torceu. O operador que não consegue não querer mais não descobriu a extensão da sua ambição. Ele contraiu, ao longo de anos, uma enfermidade da alma, e passou esse tempo todo alimentando-a convencido de que estava construindo caráter.
Convém marcar uma distinção, para que ninguém confunda este texto com um sermão contra o dinheiro. Há um argumento vizinho a este, que já explorei em outro lugar: o de que nenhum número basta, porque a vontade humana é feita para um bem universal e qualquer soma particular é, por natureza, pequena demais para preenchê-la — a promessa metafísica que não se cumpre. Aquele texto pergunta por que a riqueza não satisfaz. Este pergunta outra coisa, e a resposta vem de outra disciplina: o que acontece com o apetite que insiste em querê-la assim mesmo, depois de saber que ela não satisfaz? A resposta de Tomás não é filosófica, é clínica. Ele adoece. Um texto diagnostica a raiz no desejo; o outro descreve a enfermidade que cresce sobre essa raiz. São dois olhares sobre a mesma fome — um pela metafísica do fim, outro pela patologia do hábito.
O mercado, é claro, tem sua prescrição pronta, e vale nomeá-la só para desmontá-la. Diante do operador que não para, ele oferece gestão: controle sua ansiedade, tenha um plano, defina metas realistas, discipline-se. Repare no que essa receita pressupõe — que o problema é de execução. Que basta querer mais corretamente, com mais método, e a coisa se resolve. Mas você não conserta um apetite enfermo pedindo a ele que se esforce mais. Isso é dar mais exercício ao doente. É prescrever corrida para quem tem uma fratura exposta e chamar de preguiça a recusa dele em correr. A falha aqui não é de disciplina nem de método. É antropológica. E remédios de execução não alcançam feridas de natureza.
O que alcança? A mesma tradição que nomeia a doença aponta a cura, e ela não passa por querer mais — passa por querer bem. A temperança, para Tomás, não é a virtude de quem se priva por mérito; é a virtude que reordena o apetite ao seu fim, devolvendo ao desejo a medida que o hábito tinha apagado. Não se trata de matar a vontade de crescer. Trata-se de curá-la — de reconduzir aquilo que virou fome cega de volta a ser desejo com endereço. E, às vezes, a primeira reta ordenação de um apetite que disparou é a mais simples e a mais difícil de todas: parar. Não para sempre, necessariamente. Mas parar o suficiente para que a razão, que o automatismo havia apagado, volte a acender e olhar o que está de fato acontecendo.
Há uma diferença moral inteira entre quem oferece ao operador uma planilha melhor e quem lhe diz a verdade. A verdade é menos confortável e mais libertadora: você provavelmente não está com um problema de performance. Você pode estar com um apetite adoecido — e a boa notícia escondida nesse diagnóstico duro é que doença tem cura, ao passo que “caráter” não se trata, apenas se sofre. Nomear a enfermidade nunca foi humilhar o doente. É devolver-lhe a esperança de que aquilo tem nome, tem causa, e tem saída.
E é preciso ser honesto sobre onde essa fome pode chegar, porque em alguns ela já passou da inquietação e virou compulsão — a antessala da ruína. Se você se reconhece não no operador inquieto, mas no que já não controla o próprio querer, que devolveu ganhos inteiros só para continuar na tela, que sente que precisa operar como se precisasse respirar, então o próximo movimento certo não é mais um trade, nem mais um curso, nem uma planilha nova. É parar e procurar ajuda real — uma pessoa de confiança, um profissional. Se a dor estiver funda a ponto de a saída parecer não existir, ligue para o CVV no 188, a qualquer hora, de graça e em sigilo. Isso não é fraqueza. Reconhecer uma enfermidade e buscar tratá-la é o ato mais são — e mais corajoso — de que uma alma é capaz.
Termino como comecei, com uma pergunta que só você pode responder, e que peço que responda sem pressa. Se o seu desejo de “mais um pouco” desaparecesse amanhã de manhã — se você acordasse e ele simplesmente não estivesse mais lá —, o que você sentiria? Que perdeu um motor, o combustível que te movia? Ou que sarou de alguma coisa que doía havia tanto tempo que você tinha esquecido que era dor?
Série Psicologia Tomista do Trader. Leia também o par deste ensaio: O número que nunca basta.
